Desencanto

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On sábado, 20 de março de 2010 at 18:00

Eu faço versos como quem chora de desalinho...
.. de desencanto...
fecha o meu livro,
se por agora não tens motivo nenhum de pranto
meu verso é sangue. Volúpia ardente...
tristeza esparsa... remorso vão...
Doi-me nas veias.
Amargo e quente cai gota a gota do coração
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando sabor doce na boca
que faz versos como quem morre!

Manuel Bandeira

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Tockaí

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On sexta-feira, 19 de março de 2010 at 07:42

meteorologia: já parece outuno... calor pela manhã, friozinho à noite
pecado da gula: pão italiano na chapa
teor alcoolico: nada
audio: metacast #45

Mais um podcast pra minha playlist semanal. É um spin-off do excelente Máquina do Tempo, que eu ouço em quase todos os meus treinos longos.
Iniciativa solo do Ock-Tock, comentando os lançamentos de CDs e DVDs musicais.

Ouça aqui.

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coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On quarta-feira, 17 de março de 2010 at 08:22

Quando a alma vibra, atormentada, às pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça, este, numa explosão irremediável, num desabafo sincero de infortúnios, angústias e mágoas indefiníveis, externa-se, oprimido, por uma gota de água ardente como o desejo e consoladora como a esperança; e esta pérola de amargura arrebatada pela dor do oceano tumultuoso da alma dilacerada e a própria essência do sofrimento é a lágrima.
Rubem Braga

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Inglourious basterds

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On at 00:20

meteorologia: parece outuno
pecado da gula: brigadeiro
teor alcoolico: 2 smirnoff ice black
audio: moulin rouge ost

Inglourious basterds, direção Quentin Tarantino

Certamente não é o melhor filme de Tarantino. Pulp Fiction e Kill Bill são muito melhores, tanto em roteiro, quanto em estrutura narrativa. A construção em capítulos, como Kill Bill, não chega a fazer sentido, não agrega nada à estória. Não faria a menor diferença se o filme seguisse sem esse particionamento. Alguns elementos são dispensáveis, como alguns flashbacks explicativos totalmente desnecessários, e a participação do narrador (apesar do vozeirão de Samuel L.Jackson) chega a ser cansativa em alguns momentos.
Como em todos os filmes de Tarantino, o amor ao cinema - citações e homenagens que fazem a diversão dos cinéfilos - e os diálogos afiados não deixam de estar presentes. Uma contenda verbal (e psicológica) entre o personagem de Christoph Waltz (coronel Hans Landa) e o de Denis Menochet (Pierre LaPaditte) inicia o filme de forma primorosa. Um legítimo jogo de gato e rato, em que o tom cortês com que o coronel expõe suas idéias deixa entrever apenas sutilmente a perversidade de sua natureza maquiavélica. O modo como "manobra" o fazendeiro com suas palavras é quase encantador se não fosse nefasto. Mas aparentemente enlevado com a sagacidade de seus diálogos, Tarantino erra um pouco a mão e exagera na dose em diversas cenas - como naquela do bar no subsolo.
Ótimas locações, fotografia belíssima e alguns enquadramentos já característicos do diretor - o contra-plongé, o close em pés femininos, os travellings circulares - garantem a imersão do espectador no cenário, mas não na estória. Esta, entrecortada pelas intervenções do narrador, por letreiros explicativos (totalmente desnecessários em sua maioria), pela divisão em capítulos, não consegue envolver a platéia.
O destaque no elenco fica, claro, para Christoph Waltz, que simplesmente rouba todas as cenas das quais participa. Sua presença em cena é simplesmente hipnotizante. Não foi à toa que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante. Até Brad Pitt consegue agradar, apesar de seu personagem (tenente Aldo Raine) ser bastante caricato.
Não é uma obra-prima, mas com certeza vale ser assistido. Recomendo.

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Motivo

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On domingo, 14 de março de 2010 at 22:03


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles

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Up

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On at 07:23

meteorologia: que calor!!!
pecado da gula: croissant recheado
teor alcoolico: nada...
audio: m2list s02e11
video: inglourious basterds

Up, direção Pete Docter & Bob Peterson

É incrível a capacidade da Pixar de se superar a cada novo projeto. Assisti Wall-E (várias vezes) acreditando que nada melhor em termos de animação poderia ser feito. E então lançam Up, contando a estória de um velhinho vendedor de balões com quase 80 anos, e mais uma vez superam todas as expectativas.
Como sempre as referências são inúmeras. Desde a aparência de Carl e Muntz, claramente desenhados pensando em Spencer Tracy e Kirk Douglas, respectivamente; até elementos de uma estória de Conan Doyle, "O mundo perdido", sobre um explorador que é denunciado por fraude após exibir um esqueleto supostamente pertencente a um pterodáctilo.
Apesar das qualidades técnicas do filme, dos pequenos detalhes da animação que fazem todo o diferencial (p.ex., a barba de Carl, que vai crescendo no decorrer do filme), é sempre bom perceber que o foco da Pixar continua sendo a estória. Apesar de simplista e algumas vezes previsível (como vários clássicos Disney), o filme alterna facilmente entre o riso e o choro, emocionando a platéia com as lembranças de Carl e em seguida fazendo-a explodir de rir com uma gag visual. É esse contraponto que fisga o espectador desde o início. Aliás, o início é um detalhe à parte. Aplicando lições de cinema como nenhum outro estúdio de animação (lembrei de Orson Welles e algumas sequências clássicas em Citizen Kane e Touch of Evil), a introdução do filme conta a estória de Carl e Ellie quase sem nenhum diálogo. E quando a sequência termina, o espectador já foi conquistado pelo lirismo da narrativa e conhece as motivações do personagem. Sensacional.
Vale assistir. Diversão garantida.


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Felicidade clandestina

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On at 06:18


"(...)
Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa."


Clarice Lispector, in Perdoando Deus

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