Cópia fiel

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On quarta-feira, 27 de julho de 2011 at 17:40

meteorologia: dia típico de inverno
pecado da gula: carré de cordeiro
teor alcoolico: nada ainda
audio: argcast #71

Copie Conforme
Direção e roteiro Abbas Kiarostami


A cópia de uma obra de arte tem o mesmo valor da obra original? Se a cópia é perfeita, não há que se considerar o copista tão talentoso quanto o autor do original? Enfim, deve-se julgar diferentemente o original e sua cópia? Se a cópia cumpre a contento o mesmo papel que o original, pode ser julgada inferior? Essa polêmica, que desde sempre permeia o meio artístico e parece interessar quase que apenas aos teóricos, é o gatilho inicial deste filme, o primeiro europeu de Kiarostami.

Conheci a obra de Kiarostami assistindo “Através das Oliveiras” que, ainda hoje, é o meu predileto. Depois dele, vieram os premiados “O gosto de cereja” (Palma de Ouro, 1997) e “O vento nos levará” (Leão de Ouro, 1999). A simplicidade, o lirismo das estórias e a singeleza com que as conta são, no meu entender, os traços mais característicos da obra desse cineasta iraniano. E este não foge à regra. Um sentimento de estranheza, ou mesmo confusão, talvez seja a primeira impressão ao terminar de assisti-lo. O que de modo algum tira a beleza do filme.

Um escritor inglês, James Miller (William Shimell), está na Toscana para o lançamento de um livro de sua autoria, em que discute o valor de cópias de obras de arte. Elle (Juliette Binoche), proprietária de uma pequena galeria, comparece ao lançamento mas não permanece, deixando um bilhete para que James a procure em sua loja. Os dois encontram-se depois e Elle acaba levando-o a um vilarejo próximo com o intuito de mostrar-lhe num museu uma “cópia original”. Durante o trajeto, a conversa, que inicialmente versa sobre o assunto do livro, em alguns momentos assume um revés pessoal, incomum para duas pessoas que acabaram de travar conhecimento. Param para tomar um café e, de modo inesperado, a relação entre eles se modifica. A dona do estabelecimento, ao vê-los discutindo sobre o livro, toma-os por um casal e, surpreendentemente, ambos passam a se comportar como se realmente o fossem.

A partir daí, o que para o público era apenas um certo desconforto torna-se uma dúvida concreta. A ligeira desconfiança, um pressentimento motivado por pequenos detalhes, entonações, gestos, olhares na conversação que antecede à mudança de atitude no café tomam corpo e deixam o espectador a se perguntar o que, enfim, é real ali. Em retrospecto, somos levados a pensar como e por que afinal os dois tornam-se íntimos tão abruptamente. Será que deixamos de observar algo que poderia indicar que se conheciam previamente? Ou simplesmente, embarcaram na fantasia, encenando um casamento de 15 anos? São duas pessoas que acabaram de se conhecer, fingindo ser um casal? Ou são um casal fingindo ter se conhecido há pouco? Ou não há fingimento algum? Seriam eles apenas duas pessoas cujas experiências se complementam, se fundem numa alquimia da qual resulta essa interação tão visceral?

A genialidade é que a cada trecho de conversa o espectador se convence de uma ou outra possibilidade. As situações são vividas, relembradas e revividas de modo tão intenso e detalhado que parecem verídicas. Mas ao mesmo tempo, ao trocarem de idioma o tempo todo, passando do inglês para o francês e daí para o italiano, reforça-se a impressão de que tudo seja uma encenação, uma brincadeira, um jogo de faz-de-conta. A naturalidade dos diálogos é tamanha que em alguns momentos nos pegamos pensando “Puxa, eu já disse isso!” E a identificação com as situações é tão forte que, mesmo com a confusão gerada por não ter certeza do que exatamente está acontecendo, o espectador é cativado e mesmerizado pelo que se sucede na tela.

Devido às caminhadas do casal pela cidade e sua interação em cena, inicialmente, tem-se a impressão de que se trata de uma comédia romântica nos moldes de “Antes do amanhecer”, dirigido por Richard Linklater, a que foi exaustivamente comparado. Mas não. Logo após o incidente no café, há, em certo momento, a impressão de que os personagens ultrapassam um portal. Caminham por uma viela deserta que, de um momento para outro, enche-se de vozes, varais, mulheres, crianças. É como se a realidade se modificasse, ou melhor, como se uma outra camada do tecido da realidade fosse colocada à mostra. A essência dos personagens começa a se transformar e a naturalidade (tanto dos personagens quanto das atuações), que foi o ponto forte na primeira parte do filme, dá lugar a um jogo de cena mais explícito, a interpretações mais intensas e, sem exagero, mais teatrais.

A fluidez dos diálogos e a espontaneidade dos atores em cena são envolventes, mesmo quando a dramaticidade e o jogo de cena tornam-se mais acentuados. Por exemplo, quando estão caminhando pela rua e Elle interrompe o que está falando para elogiar um bebê e imediatamente retoma o que estava falando. E o encanto da narrativa não seria o que é sem a presença de Juliette Binoche que, não por acaso, foi premiada como a melhor interpretação feminina no Festival de Cannes, 2010. A atriz, sempre perfeita em sua interpretação, domina a cena e, na sutileza de gestos e olhares, dá a medida certa da ambiguidade que permeia todo o filme. E o estreante Shimell, ainda assim sai-se muito bem, apesar do desafio interpretativo de contracenar com Binoche. Ambos são muito eficientes ao interpretar as nuances das mudanças pelas quais passam os personagens e a empatia entre eles é essencial ao dar veracidade a seu relacionamento. Além da interação entre o casal, é importante notar sua interação com outros casais encontrados durante o passeio. Um recém-casado, outro já com anos de convivência e ainda outro bem idoso. Como se vislumbrassem (ou relembrassem) fases distintas daquele relacionamento que aparentemente estão simulando.

Não bastasse a excelente construção dos diálogos, a riqueza de detalhes nos cenários e os enquadramentos precisos transformam algumas cenas quase em pinturas. É interessante notar o quanto Kiarostami ocupa-se com o que está “fora de foco” na cena e o quanto essas cenas de fundo são importantes no desenrolar da estória. A composição, a combinação dos elementos na tela é repleta de significados, como quando estão no restaurante e vemos James ao centro e a festa dos recém-casados ao fundo, do lado de fora do restaurante, como que representando uma lembrança do personagem. Ou então a marcação, a dica visual dada ao público, para evidenciar a mudança de atitude dos personagens. Quando os atores olham diretamente para a câmera (para o espectador) é como um alerta “Ei, preste atenção agora!”. Adicione-se a isso, o efeito estético obtido ao utilizar reflexos e recortes na construção da cena, como quando estão na galeria conversando e vemos apenas o rosto de Elle refletido numa das peças expostas. Ou a forma com que os atores são filmados dentro do carro conversando. A imersão do espectador na cena é quase impossível de evitar. Uma aula de cinema.

Possivelmente o intuito do diretor não fosse que o espectador matasse uma charada, descobrindo ao final do filme qual era a verdadeira relação entre os personagens. Ele nos faz pensar sobre o valor da cópia. O relacionamento talvez fosse a cópia de um casamento, mas mesmo assim tinha seu valor. Afinal, como afirma James no início de sua palestra, se a qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, então uma falsificação pode ter a mesma validade do original.

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