"Give me the chance to do my very best"

coded by Cristine Tellier | tags: | Posted On segunda-feira, 22 de agosto de 2011 at 22:21

meteorologia: frio... muito frio
pecado da gula: chocolate quente
teor alcoolico: uma dose de absolut citron
audio: podcast disney mania 01
video: fringe


A festa de Babette (Babettes gæstebud)
Roteiro e direção Gabriel Axel

Não sei precisar quando foi a primeira vez que assisti a este filme. Era adolescente ainda e, apesar de não ser voltado ao público da minha idade, conseguiu me conquistar. Certamente, a temática do filme é em parte responsável - culinária sempre é algo que me agrada bastante. Mas não apenas isso. Assisti-o ainda muita vezes depois. E a cada uma delas, a singeleza da narrativa e os personagens cativantes me deleitaram. É o tipo de filme que, mesmo já conhecendo a estória, é sempre agradável assistir. Ainda hoje, ao revê-lo, experimento o prazer de descobrir algum detalhe ainda não notado. Poucos são os filmes com essa qualidade.

Filme dinamarquês, baseado num conto de Karen Blixen, narra a estória de Babette Harsan, que se refugia na casa de duas solteironas (filhas de um falecido pastor) num vilarejo da Dinamarca, fugida da repressão à Comuna de Paris. Elas a acolhem e a empregam como faxineira e cozinheira. Passados mais de uma dezena de anos, Babette descobre ter ganho na loteria e, grata às pessoas que a acolheram, decide oferecer um banquete à francesa, aproveitando a comemoração do centésimo aniversário do pastor.

Tudo no vilarejo gira em torno de privação. Essencialmente, privação de prazer, em qualquer forma. O pastor pregava a salvação através da renúncia. As irmãs sacrificaram suas paixões da juventude em nome da fé e das obrigações. Philippa abdicou de um relacionamento com um jovem oficial, Lorenz Lowenhelm, sobrinho de uma das devotas da seita fundada pelo pastor. Martine abriu mão de uma promissora, mas sequer iniciada, carreira como cantora, orientada por um cantor lírico de sucesso, Achille Papin. A chegada de Babette, perturba ligeiramente a rotina austera das irmãs. Tenta, com parco sucesso, adicionar um pouco de cor e sabor ao dia-a-dia insípido dos habitantes locais. Auxiliando as irmãs em seu trabalho social, seus dotes culinários logo são percebidos. Ligeiras alterações - um pouco de ervilhas ou pão embebido em cerveja para encorpar a sopa - conseguiam valorizar as receitas simples servidas aos idosos. Mas a escassez de recursos e os preceitos severos seguidos pela comunidade impedem mudanças muito significativas.

Ficamos conhecendo a estória da juventude das irmãs através de flash-backs, narrados em off por uma voz feminina. Tem-se a impressão de que alguém nos lê a estória de renúncia de ambas, na tentativa de fazer o espectador entender como e por quê vivem sozinhas e em condições tão rigorosas. As constantes idas e vindas temporais - além de esclarecer o espectador - dão a nítida impressão de que aqueles momentos são presença recorrente na memória das irmãs. Percebemos, depois de tomar conhecimento do passado, que alguns pequenos gestos e palavras de Philippa e Martine indicam que ambas são saudosas daquele tempo, mesmo não se arrependendo da decisão tomada.

A fotografia do filme é cinzenta, sombria, quase triste, acentuadamente na primeira metade do filme. O local, apesar de belo, é mostrado sempre em tonalidades pálidas. Significativamente, Babette chega ao vilarejo sob forte chuva, prenúncio do que a esperava ali, pouco sol, muitas nuvens – concreta e figurativamente falando. Tem de se adaptar ao ambiente puritano e bastante religioso, herança dos ensinamentos rígidos do pastor, mantidos vívidos junto à comunidade pelas duas irmãs. A vida na cidade é tão pacata que, ao assistir, temos a sensação de estarmos dentro daquele poema de Drummond, “Cidadezinha qualquer” (*). Tudo é feito silenciosamente, sem pressa, quase sem energia. E as cores frias e monótonas do ambiente, dos cenários e do figurino remetem exatamente a isso. Em dados momentos, tem-se a impressão de que falta vida aos habitantes do vilarejo. Os enquadramentos que se repetem, o ritmo lento da câmera e das cenas enfatizam esse sentimento.

Interessante notar que os sons “ambientes” têm bastante destaque, enfatizando planos-detalhe de pequenas cenas do dia-a-dia: o tilintar dos guizos dos cavalos, o som da água caindo na tigela, ou o chiado das frituras na panela, o som de eventos da natureza (chuva, vento, ondas, etc). Esses sons formam o contraponto elegante , também complemento, aos silêncios constantes, já que a trilha sonora é bastante discreta, totalmente de acordo com o clima do filme.

E, de uma hora para outra, depois que Babette fica sabendo do prêmio da loteria e resolve fazer o banquete, tudo muda. Na segunda metade do filme, tudo e todos (personagens, cenários, câmera, sons) parecem ter recebido uma injeção de ânimo. O banquete representa uma suspensão do cotidiano, antes mesmo de acontecer. E, na mente dos pacatos habitantes, apresenta-se quase como uma ruptura da sua realidade. Uma ameaça aos preceitos seguidos desde sempre. O ritmo cíclico do fazer e refazer todos os dias sempre a mesma coisa é quebrado. Mas não apenas isso. Os preparativos para o banquete funcionam como um “distúrbio na Força”. A perspectiva de experimentarem algo desconhecido modifica os habitantes. A vida se renova e se transforma em decorrência da criação de algo diferente do comum. O banquete é beneficamente subversivo e transgressor ao metamorfosear uma ação cotidiana (cozinha e servir) em arte. E essa transformação é percebida em todo o espaço fílmico. As cores se tornam mais vivas, tanto dos cenários quanto dos figurinos. A mesmice do interior da casa das irmãs é substituída pela diversidade de formas e cores dos ingredientes para o banquete, que Babette foi comprar. As cenas tornam-se mais movimentadas, o ritmo lento do início do filme é substituído por uma energia que reflete o ânimo de Babette. Os silêncios e as conversas quase sussuradas são susbtituídas por diálogos mais dinâmicos e audíveis. Os sons ambientes ainda estão presentes, mas eles também ficam mais “vivos”, menos contemplativos.

E sem sombra de dúvida, a melhor cena do filme é o banquete em si. Temendo as consequências do prazer pecaminoso que pudesse ser sentido, os congregados combinam entre si não sentir nada nem esboçar qualquer reação ao que fosse servido. Porém, apesar de nenhum comentário ser feito objetivamente sobre a comida, percebe-se a transformação que se opera nos convidados à medida que os pratos se sucedem. Eles são lentamente seduzidos pelos sabores. Animosidades se dissolvem, antigas desavenças se desfazem. O deleite gastronômico acaba por fazer com que cada um dos convivas queira expressar o melhor de si. O prazer de saborear algo tão delicioso não se mostra pecaminoso como tinham receado. Quase magicamente, a arte de Babette opera algo que os preceitos religiosos seguidos pela comunidade não tinham logrado alcançar.

A quantidade de símbolos e alegorias passíveis de interpretação é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme. O sem-número de significados a serem apreendidos e a satisfação da descoberta de cada um deles geram um prazer similar ao experimentado pelos personagens. E sentimo-nos parte do filme ao compartilhar dessa mesma sensação. Difícil descrever, é necessário assistir.


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(*) “Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus. “


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Vamos cozinhar?

coded by Cristine Tellier | tags: , | Posted On domingo, 21 de agosto de 2011 at 14:58

meteorologia: frio e garoa
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: 8.6
audio: contra-relógio no ar #016
video: fringe

Estava finalizando um post sobre um filme que gosto muito, “A festa de Babette” e, enquanto escrevia, comecei a lembrar de outros filmes em que a culinária é parte importante, ou essencial, da estória. Em alguns, é o pano de fundo perfeito para o enredo; em outros, é encarada como algo mágico, transformador. Mas em todos, o prazer, tanto de fazer quanto de degustar, é o que atrai e seduz.


  • Babettes gæstebud (A festa de Babette)
    Filme dinamarquês de 1987
    Direção e roteiro: Gabriel Axel
  • Como agua para chocolate (Como água para chocolate)
    Filme mexicano de 1992
    Direção: Afonso Arau
    Roteiro: Laura Esquivel
  • Chocolat (Chocolate)
    Filme norte-americano de 2000
    Direção: Lasse Hallström
    Roteiro: Robert Nelson Jacobs
  • Ratatouille
    Filme norte-americano de 2007
    Direção: Brad Bird, Jan Pinkava
    Roteiro: Brad Bird, Jim Capobianco
  • Estômago
    Filme brasileiro de 2007
    Direção: Marcos Jorge
    Roteiro: Fabrizio Donvito


  • Julie & Julia (Julie e Julia)
    Filme norte-americano de 2009
    Direção e roteiro: Nora Ephron
  • Vatel
    Filme franco-belga de 2000
    Direção: Roland Joffé
    Roteiro: Tom Stoppard, Jeanne Labrune
  • Tampopo
    Filme japonês de 1985
    Direção e roteiro: Jûzô Itami
  • Mostly Martha (Simplesmente Martha)
    Filme alemão de 2001
    Direção e roteiro: Sandra Nettelbeck
  • Big night (A grande noite)
    Filme norte-americano de 1996
    Direção: Campbell Scott, Stanley Tucci
    Roteiro: Stanley Tucci, Joseph Tropiano

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